Boaventura de Sousa Santos: te

Compositor, Músico, Ensaísta, Investigador do CES, Professor na ESML

Boaventura de Sousa Santos: texto para Concerto no CCB (5-7-2008)

António Pinho Vargas

São raros os seres humanos que, na busca incessante da sua individualidade, constroem paradoxalmente identidades colectivas que os transcendem, sejam elas as de um povo, de uma época, de uma causa, de uma emoção ou aspiração partilhadas. Porque não usam andaimes em tais construções é simultaneamente transparente e inabarcável o modo como justapõem o possível e o impossível, a realidade que existe e a que não existe, o quotidiano e o sublime, o que somos e o que merecemos ser. Por não sabermos compará-los com a desparadoxal vivência da nossa mediania e das medianas distinções de que ela é feita, chamamos-lhe artistas. O António Pinho Vargas é um desses raros seres humanos.

Ao contrário do que disse Ortega y Gasset, o ser humano não é apenas um ser e a sua circunstância. É também, e sobretudo, o que falta na sua circunstância para que ele possa ser verdadeiramente humano. É esta aspiração da humanidade verdadeira que vibra na música de António Pinho Vargas e vibra dentro de nós quando a ouvimos. Ouvi-la é entrar dentro de nós pelos caminhos do risco e da esperança, da criatividade e do futuro. Num país outonal, a música de António Pinho Vargas é a inabalável força da Primavera. Num contexto social e político grotescamente medíocre e desistente, a música de António Pinho Vargas é a alegria consistente da rebeldia.

António Pinho Vargas – sem dúvida, um dos compositores e músicos mais importantes do Portugal pós-25 de Abril – é a nossa utopia realista. A sua música é realista porque, de tão próxima, a podemos tocar quando ele a compõe e toca. E é utópica porque, ao compor e tocar, ele nos toca nas nossas mais abissais ambivalências, em tudo o que não somos e poderíamos ser, como indivíduos, país e humanidade.

Somos colectivamente a partitura infinita de António Pinho Vargas. Daí que a sua música entre em nós de modo tão corporal, tão visceral, e se misture na nossa intimidade com a minuciosa cumplicidade de quem nunca nos foi estranho. Toca-nos em todos os sentidos, mesmo naqueles que só fazem sentido enquanto o ouvimos. A perda inabalável de que somos por vezes acometidos depois de o ouvirmos é o outro lado da responsabilidade que ele nos inculca de sermos humanos por nossa própria conta. Como ele.

O tempo de António Pinho Vargas é o nosso tempo e todos os outros tempos de que é feito, nomeadamente o tempo renascentista. Compositor e músico versátil, percorre com límpida facilidade géneros musicais tão diversos quanto o jazz e a música erudita, composições tão distintas quanto peças orquestrais e óperas. A sua música é sempre de um enorme apuro técnico, mas não há nela traço de mecanicismo. Por isso, é-lhe mais fácil multiplicar emoções do que discípulos. E, além de tudo o mais, está na música tão variamente que não teme quase impúdicas duplicidades. Como se a música fosse a casa onde nasceu e vive, mas também como se ela fosse uma construção intrigante e instigante só compreensível se analisada de fora, da rua, da cidade, do país e do tempo onde foi construída. Intelectual intenso, António Pinho Vargas tem já uma obra significativa sobre a sociologia e a filosofia da música e tem em curso uma reflexão sociológica sobre a música portuguesa e o seu lugar ou deslugar na música contemporânea que, pela sua profundidade, erudição e coragem denunciadora vai certamente abalar o cânone musical que, com a auto-suficiência típica da preguiça e da ignorância ignorante de si mesma, se instalou tanto na crítica como na promoção desta arte no nosso país. Nem a música nem a consciência crítica de António Pinho Vargas cabem na ortopedia conceptual comissarial e encomendatícia que durante décadas dominou a cena musical portuguesa. Que aqueles que o ouvem e se emocionam ao ouvi-lo descubram a violência dessa ortopedia dominante, na música como em tantos outros domínios da nossa vida colectiva, e se revoltem contra ela. Com alegria.

 

Boaventura de Sousa Santos

Coimbra, 30 de Junho de 2008

Referências

Compositores A-Z In Público 7/18/04
Entrada no New Groove 2000
Boaventura de Sousa Santos: texto para Concerto no CCB (5-7-2008)
© 2013 António Pinho Vargas. Reservados todos os direitos. All rights reserved.
Desenvolvido por Luis_Pinto @ Cowork, Design Carlos Pinto