Ópera e a condição

Compositor, Músico, Ensaísta, Investigador do CES, Professor na ESML

Ópera e a condição "site-specific"

30 de Agosto 2008 15:43
Excertos da conferência "Ópera e a condição site specific"
de ANTÓNIO PINHO VARGAS
“Para mim, compor uma ópera hoje é o equivalente a construir uma instalação site-specific. Destina-se a ser montada e apresentada num determinado local, terá as características que resultam do trabalho dessa montagem, terá a aura acústica possível nas condições que a sala propicia. Após a desmontagem desse evento será um objecto sem utilidade: consistirá num conjunto de papéis amontoados num caixote.”

“Apesar do facto de, na realidade, a obra se destinar a ser, sem dúvida, local, efémera, e de seguida, o tal desperdício, através da esquizofrenia que nos habita a todos conseguimos compor estabelecendo, na nossa imaginação, uma ligação com outras óperas e outras obras que conhecemos. Sentimo-nos desse modo, parte de uma tradição – a tradição da música ocidental – e parte de uma genealogia de compositores. É destas obras e desses compositores que falamos nas nossas aulas, nos nossos escritos, nas nossas conferências; imaginamos obras de arte totais, obras de arte parciais, obras de arte tonais ou atonais, obras de arte modernas ou pós-modernas, como se a nossa própria ópera fosse, de algum modo, ligar-se, estabelecer um diálogo, entrar em relação, como se a nossa ópera fosse de algum modo habitar a “mesma casa do ser” que habitam as obras e as óperas que nos estimulam o discurso.”

“O nosso site tem vários nomes. Chama-se antes de mais nada Portugal. Depois chama-se Lisboa ou, às vezes, Porto; ainda se chama Culturgest, Casa da Música, Centro Cultural de Belém, Teatro de São Carlos e, mais raramente, Fundação Calouste Gulbenkian. Para os administradores e gestores culturais que trabalham nestas instituições, nalguns casos há várias décadas, este problema que venho descrevendo não existe, não se coloca. Por intermédio de um lance intelectual que os liberta de qualquer responsabilidade nesta matéria, consideram que é ao artista que cabe romper com essa localidade, é da responsabilidade do artista o facto da sua ópera ser local ou global. Na minha opinião, este é um erro grosseiro mas encontra-se disseminado e interiorizado praticamente entre todos os agentes.”

in “Ópera e a condição site-specific”
texto completo em pdf.

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