Sobre a heteronímia in Autores, Revista da SPA, Outubro 2008

Compositor, Músico, Ensaísta, Investigador do CES, Professor na ESML

Sobre a heteronímia in Autores, Revista da SPA, Outubro 2008

18 de Outubro 2008 14:42
/
A – No entanto nega a possibilidade da síntese! Parece-me uma contradição!

APV – Não! Porque jazz é jazz, música erudita é música erudita, Procurei aprofundar as razões de ser das duas músicas. É como chegar ao pé do Fernando Pessoa e perguntar-lhe assim: “Ó meu amigo, afinal porque é que o Álvaro de Campos escreve de uma maneira e o Ricardo Reis escreve de uma maneira completamente diferente? Porque é que não junta as duas coisas? José Gil, o filósofo, há pouco publicou um romance. E até agora publicou filosofia. É a questão das heteronímias. O romance dele não é considerado pelos filósofos, provavelmente não é lido.

A – Mas  não será impossível ao José Gil romancista esquecer o José Gil filósofo? Tudo o que ele já escreveu anteriormente estará de certa forma ali presente...

APV – Mas isso é a heteronímia... a questão é que a maior parte das pessoas não terão lido Deleuze, Heidegger e, sobretudo, Freud, que nos ensinou que cada um de nós são vários, todos temos vários dentro de nós. O artista é aquele que mais facilmente exprime os seus vários eus. José Gil disse-o. Falou de heteronímias. Agradeço-lhe isso por passo a vida a ser confrontado com essa questão. A sorte de Fernando Pessoa foi não ter dado entrevistas! Se não estaria sempre a ouvir: “Ora diga lá quem é o Bernardo Soares? Que brincadeira vem a ser esta?” E depois tenho a minha biografia. Até um certo momento, a prática de músico de jazz teve a primazia. Depois passou a ser a música contemporânea.

p. 29

//
APV - ... Qual é o meu problema? Conhecer muito bem as duas práticas musicais.

A – E é um problema?

APV – Durante muito tempo, para mim foi. Há relativamente pouco tempo tornou-se evidente que não era um problema, mas sim um privilégio... É que o meu caso é raro. Não conheço nenhum músico de jazz que tenha composto três óperas – estou a compor a quarta –, quatro peças para orquestra sinfónica, etc. Inversamente não conheço nenhum compositor de óperas e de peças para orquestras e quartetos de cordas que, ao mesmo tempo, tenha gravado seis ou sete discos de jazz. Alguns tiveram contacto com a outra música; na Holanda, alguns compositores diziam: “Ah, o jazz para mim é muito importante porque é uma libertação”. É verdade, mas o contacto que eles tiveram com o jazz foi efémero e pouco relevante nas suas biografias.

p.28
//

Arquivo

© 2013 António Pinho Vargas. Reservados todos os direitos. All rights reserved.
Desenvolvido por Luis_Pinto @ Cowork, Design Carlos Pinto