Sobre a recepção das óperas novas:   pequena contribuição para uma compreensão das pulsões e da  vontade de poder.

Compositor, Músico, Ensaísta, Investigador do CES, Professor na ESML

Sobre a recepção das óperas novas:  pequena contribuição para uma compreensão das pulsões e da  vontade de poder.

09 de Janeiro 2009 15:25
    Começo por um excerto de A ópera e a condição site specific:

    "O facto de já ter completado 3 [agora 4] óperas, permite-me dizer que, quando a estreia chega, eu e os cantores, sobretudo, temos um conhecimento da peça que se foi construindo pela via da repetição diária durante os ensaios. Gradualmente vamos tomando conhecimento da peça e, quando tudo corre bem, adquirimos mesmo uma espécie de encantamento com a música. Isto acontece porque já ouvimos a peça um número suficiente de vezes durante os ensaios, para que esse encantamento possa ser idêntico ao que sentimos com as óperas que conhecemos bem ou porque já assistimos várias vezes a representações em teatros ou porque temos discos ou DVDs. No entanto a nossa ópera vai ter apenas o tempo que dura a sua execução para seduzir os ouvintes. Normalmente não chega.

    Escrevi no meu livro de 2002 “Sobre música” a propósito da minha ópera de 1996, Édipo, tragédia de saber, que, na altura, não compreendi o facto de ser sequer possível alguém não gostar da minha ópera. Estava totalmente sob o efeito do encantamento sem ter disso consciência.
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Citação completa:
"Devo dizer que poucas vezes fiquei tão fascinado com o meu trabalho como com o Édipo. Não sei bem que factores terão pesado mais. Se verificar o encantamento progressivo dos cantores e músicos, nas poucas pessoas que foram ver os ensaios, nos técnicos da Culturgest, etc. De tal modo posso ter ficado enfeitiçado por isso que quando alguém não gostava ficava espantado e furioso."
in Sobre Música, 2002, p. 268
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    Só dez anos mais tarde, durante a preparação da ópera de câmara A little madness in the spring em 2006, pude perceber a diferença entre os diversos tempos de contacto real com as peças novas. Enquanto que os artistas, os cantores sobretudo, tinham tido a possibilidade de passar pelo processo de construção da peça que permite o encantamento, o público tem apenas como possibilidade de atingir esse encantamento o tempo da própria duração da ópera.
    Pode-se argumentar que isso é assim com todas as estreias e que, se a obra tiver sucesso e a possibilidade de ser repetida ou gravada, haverá ou terá no futuro as mesmas possibilidades de encantamento para ela.
    Não creio que isto seja verdade.

in Ópera e a condição site-specific, Dez 2007

    Face à variada recepção crítica que  se verificou em relação a Outro Fim penso que as pulsões que comandam a vontade (ou a falta dela) de compreender uma nova ópera estão associadas a dois factores.
    Em primeiro lugar à própria experiência de ouvir ópera - aquela que aumenta inevitavelmente com a idade - que me parece ser capaz de dirigir a atenção acima de tudo para a música mesmo que considere todos os outros factores em jogo, aquela que é capaz de analisar as relações entre as cenas, de se comover com as notas das sopranos, com os duos de amor, os lamentos, as violências ou os duelos reais ou virtuais, tal como tudo isto se exprime musicalmente.
    Em segundo lugar, uma espécie de processo de auto-envenenamento que é provocado por vários factores, alguns dos quais sem dúvida indizíveis, sendo um deles o facto de se estar em permanente e mais fundamental contacto com discos e gravações de obras já conhecidas ou rodeadas de uma qualquer aura  e, mais importante ainda, fazendo-o na perspectiva de emitir um juízo de valor, de assumir uma variante prosaica da posição do Grande Juiz ou Inquisidor dotado do poder de condenar ou absolver.
    Esse processo psicológico agudiza o facto de a falta de tempo afectar todos aqueles que não participaram na criação, ou seja, a maior parte do público. Só os mais experientes, aqueles que amam apaixonadamente e há muito tempo esse género tão particular, conseguem ultrapassar  com relativa facilidade a falta de tempo e conseguem ouvir Imediatamente o essencial.
    Para ouvir Mozart nunca há falta de tempo. Mas mesmo Mozart pode ser ouvido de várias maneiras.

    Já há algum tempo partilhei um camarote do São Carlos com outro compositor. No intervalo, antes de recomeçar a ópera Turandot, que inclui a secção na qual o tenor canta a famosa ária, ele disse: "Vamos lá ver como é que ele se safa". Fiquei totalmente perplexo porque não é esse o meu modo de frequentar os concertos, nem nunca foi. No entanto, suspeito estar infelizmente em minoria.
    Esta atitude perante a performance musical equivale à dos frequentadores das arenas romanas. O prazer de assistir aos combates de morte, de ver quais são os que sobrevivem e os que são mortos, sendo o dedo para baixo do Imperador o momento exaltante do juízo final. Radica aqui igualmente a prática - igualmente muito latina - de apupar o cantor que "falhou" no final da ópera. Esta será uma das formas de ouvir Mozart.
    Não se pode mudar o regime actual que é dominado pela existência da arte na era da reproductividade técnica, dos discos e pela da existência institucional no espaço público da critica como mediação  No entanto também nesta prática haverá várias formas de ouvir Mozart: a grega ou a romana.

    O que pretendo sublinhar no caso das estreias é, em primeiro lugar, o facto de não haver qualquer ponto de comparação que permita aferir se os cantores, o compositor, o maestro, o encenador "se safam".  Em segundo lugar, será a necessidade de pensar sobre "a falta de tempo", a necessidade de reflectir sobre a verdadeira impossibilidade de captar numa só audição tudo o que uma obra propõe e, consequentemente, uma espécie de cautela no exercício do poder do Imperador, um esforço de contenção da pulsão de morte que domina o decadente espectador da decadente civilização.Talvez fosse de privilegiar o modelo do anfiteatro das tragédias gregas - a participação nas representações dos mitos colectivos - ao modelo, actualmente dominante, do circo romano.

António Pinho Vargas, Janeiro 2009

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