Um Requiem é uma pergunta, a pergunta essencial da Humanidade MÁRIO LOPES  21/11/2012  Esta noite, Pinho Vargas apresenta na Gulbenkian o seu Requiem.

Compositor, Músico, Ensaísta, Investigador do CES, Professor na ESML

Um Requiem é uma pergunta, a pergunta essencial da Humanidade MÁRIO LOPES  21/11/2012  Esta noite, Pinho Vargas apresenta na Gulbenkian o seu Requiem.

11 de Janeiro 2013 17:16
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Há uns dias, o maestro Paulo Lourenço discutia com António Pinho Vargas a última nota da obra que este estreará esta noite. Um Mi maior com nota lá, ou seja, "fora da perfeição do acorde", explica o compositor. Disse-lhe Paulo Lourenço: "Aquele lá existe para colocar o ponto de interrogação fundamental. Porque depois, não sabemos". Não sabemos o que existe depois do fim. Essa é a questão fundamental. É por ela que o Requiem atravessou tempos e estéticas, éticas e religiões. Tornou-se património cultural (principalmente) ocidental e matéria determinante na história da música.

Às 19h, no Grande Auditório da Gulbenkian (repete amanhã às 21h), num programa que inclui o Adágio para Cordas de Samuel Barber e a Sinfonia dos Salmos de Igor Stravinski, o Coro e a Orquestra Gulbenkian, dirigidos pela maestrina Joana Carneiro, interpretarão também um Requiem. O de António Pinho Vargas, uma encomenda da Fundação Gulbenkian, que se reunirá às centenas que atravessam a história da música. Que se reunirá ao mítico de Mozart ("a obra máxima do compositor máximo", definirá o maestro e compositor Pedro Amaral), ao alemão de Brahms, ao épico de Berlioz, ao Canticles de Stravinski. E ao do oitocentista Domingos Bomtempo, dedicado a Camões, e ao de Fernando Lopes-Graça, ateu, como Pinho Vargas, que trabalhou o texto da liturgia como homenagem às vítimas portuguesas do fascismo.


Um peso histórico imponente, que não atemoriza Pinho Vargas. Este é o seu Requiem, sem dedicatória ("o Requiem é para o ser humano, para aquilo que lhe é absolutamente essencial"). Estreia em 2012 num país a viver "um momento terrível de extrema turbulência, insegurança, de incerteza": "São na realidade tempos finais, o fim de qualquer coisa, pelo menos". Pragmaticamente, aponta que a escolha de um Requiem surge como sequência da sua oratória Judas, estreada em 2002. Mas é por vezes impossível impedir a realidade de contaminar a obra. "Sendo extremamente subjectivo, julgo que é impossível escapar ao momento tão duro que Portugal e o mundo estão a atravessar. Mas como é que eu hei-de saber o que está naquela peça que mostre o estado do mundo?" Só vê sinais: "Quando a terminei não vivíamos no ambiente actual de catástrofe iminente, mas tem momentos de uma dureza sobre outros de uma fragilidade intensas", que reconhece, hoje, no país que habita. E algo terá transbordado para o seu Requiem.

Dois dias antes da estreia, encontrámos Pinho Vargas dobrado sobre a partitura do seu Requiem, lançando-lhe um último olhar antes do ensaio que se seguiria à entrevista. "Tenho sempre ansiedade antes das estreias, quer seja a de um quarteto de cordas, um oratório ou um Requiem". Mas... Tem que haver um mas.

O Requiem é uma peça central na história da música. A missa que pede a Deus que acolha no seu seio aqueles que morreram. Desligado da liturgia católica apostólica romana, tornou-se ao longo dos séculos também um espaço de resposta íntima ao mistério da existência. A sua permanência no universo musical, do Renascimento ao Barroco, do Romantismo ao Modernismo, explica-se, segundo o compositor João Madureira, pela crença, inscrita no Requiem, "que a música pode resgatar os sentimentos mais fortes, aquilo que é íntimo e inexplicável". António Pinho Vargas: "Caminhamos para a morte e essa consciência é que faz com que nos tentemos elevar. Lançamo-nos num ciclópico esforço de construção para nos tentarmos realizar no reduzido âmbito temporal que temos". É por isso que àquele "a ansiedade é igual a qualquer outra estreia" que nos dissera em início de conversa, se segue o "mas". Como explica o maestro e compositor Pedro Amaral, a dimensão que atingiu o Requiem nasce da "legitimação histórica" que surge com o de Mozart e, ao mesmo tempo, da universalidade da sua questão central: "todo o homem se confronta com a morte e a arte em particular é uma forma de fugir à morte". Acrescente-se, no caso específico português, "a tradição histórica desta missa".

Para os mestres polifonistas portugueses da passagem do século XVI para o XVII, como Duarte Lobo ou Frei Manuel Cardoso, "os Requiem eram as obras máximas que se podiam atingir". Para Lopes-Graça, o de Bomtempo era a "obra máxima da música portuguesa". Sentencia Pedro Amaral: "É impossível um compositor português escrever um Requiem sem se lembrar que as obras máximas dos seus antecessores são Requiem".
 


António Pinho Vargas, músico de percurso pouco comum na música erudita - movimentou-se durante muito tempo entre ela e o jazz -, tem essa consciência. Não só do contexto português: "Não faria de conta que não existe nenhum. Tenho na memória o de Mozart, que adoro há 40 anos". E, na composição do seu, pegou, por exemplo, na pauta do de Brahms. Mas feito esse estudo, este compositor que "não tem uma filosofia de criação e nenhum sistema de composição", que se autodefine pela "liberdade do acto criativo", deixou que as palavras o guiassem. Aconteceu então, por exemplo, que o Dies Irae lhe fugiu da tradição. Não ouviremos as "habituais secções ritmicamente poderosas", as vozes "fortes e atemorizadoras": antes "notas longas, como que uma coisa a aparecer do nada".
 



João Madureira, que foi aluno de Pinho Vargas nos anos 1990, está curioso com aquilo que será o seu Requiem. Há algo basilar a esta peça que sempre identificou no antigo professor. "Não é uma pessoa religiosa, mas há um lado onírico e intimista, uma reflexão sobre a condição humana que está sempre presente na sua criação. Parece-me um compositor que facilmente entra no universo de música que é vista como religiosa."

Em 1993, Pinho Vargas criou Monodia - Quasi un Requiem, uma reflexão sobre a morte para quarteto de cordas. O Requiem real poderia não ter chegado. Porque não olha com particular esperança para a música contemporânea: "Vivemos um museu imaginário da arte do passado." E, por isso, acredita que quase nenhuma da música criada após 1950 sobreviva no futuro. "Quando terminei a minha tese de doutoramento sobre a ausência da música portuguesa no contexto europeu, a violência foi de tal ordem que pensei em largar tudo." Depois, de repente e sem aviso, regressou "o desejo criativo".

Esta noite estreia o seu Requiem.
MÁRIO LOPES  21/11/2012

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29 de Setembro 2013 16:23
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