Quatro ou cinco movimentos fugidios da água
para clarinete, violoncelo e piano

Nota de Programa
Antes de começar a compôr o Trio ouvi os trios de Brahms e Beethoven para me colocar na sonoridade desta peculiar formação instrumental. Admirei as obras, especialmente a de Beethoven, que já não ouvia há muito tempo, mas percebi claramente que, para esta obra, as referências aos clássicos estavam-me vedadas. Enquanto, por exemplo nos meus dois Ciclos de Canções de António Ramos Rosa de 1995 e Albano Martins de 2000, a sombra de Schubert e Schumann não tinha constituido um peso mas antes uma leveza. Neste caso o caminho tinha de ser outro. Cada peça reclama, sem dúvida, o seu modo de ser, o seu universo. Por outro lado os ” Quatro ou cinco movimentos fugidios da água” estão ligados pela proximidade cronológica à obra para piano solo “Holderlinos”. Trata-se de uma peça sobre as grandes variações de movimento que a água do mar proporciona, desde que haja disponibilidade para olhar para ele, da aparente imobilidade profunda dos fins de tarde, até à agitação impressionante das tempestades. Não fiz nenhum estudo das periodicidades fractais das marés. Penso que a arte não tem como objecto a natureza mas a memória dela, ou mesmo a própria memória da arte.

António Pinho Vargas, junho de 2001

Nota de programa
https://antoniopinhovargas.com/programas/quatro-ou-cinco-…fugidios-da-agua/

Video
https://www.youtube.com/watch?v=DcaTlZ8ZBIc

Score/Partitura
https://www.editions-ava.com/pt/quatro-ou-cinco-movimentos-fugidios-da-água