A Sonata de Alban Berg é um tratado de composição (o que já estava farto de saber).

Ler a Sonata a tocar (pode-se ler sem tocar, por incrivel que pareça) mas, estando a tocar, os motivos e o seus materiais de certo modo tornam-se resplandecentes debaixo das nossas mãos. Quase não nos deixam hipótese de não os identificarmos, compasso a compasso, de tal modo nítidos são os seus elementos: resumindo, motivos de quartas, com ou sem trítonos, em infinitas combinações, transposições por tons inteiros, movimentos do baixo descendente cromaticamente e, ao mesmo tempo, subitamente percebemos que nunca deixamos de estar na tonalidade de Si menor. A tonalidade está simultaneamente sempre presente e sempre em fluxo, em desvio, em matizes.

As duas últimas páginas (10 e 11) provocam a quem as tenta tocar/decifrar uma espécie de vertigem. Tanto nos parece, por um lado, que estamos a preparar a cadência perfeita da Sonata (fá# dominante para si tónica) – e na verdade estamos – como por outro, vários dos motivos anteriores reaparecem ora sobrepostos – aqueles que nos conduzem para a resolução – como alternados com partes anteriores repetidas literalmente, sem qualquer transposição, e subitamente o último acorde dessa repetição, desvia-se, altera-se em relação ao seu aparecimento anterior (nas primeiras 3 páginas da obra), e resolve numa outra direcção. Começa por ser uma repetição literal e no último momento desvia-se, para um novo encadeamento, para tomar a sua parte do infinito deslocamento para a cadência perfeita (fá # -si) de maneiras tão inacreditáveis que nos fazem parar de tocar, olhar e dizer, como é possivel?

Paramos de tocar, paramos o nosso esforço de leitura da música, para exclamar o nosso espanto! Sobre esta Sonata não se escreveu tanto, de modo nenhum, como sobre as óperas Wozzeck ou Lulu, sobre o Kammerkonzert ou a Suite Lírica. Estas usam séries dodecafónicas com a esplendorosa individualidade de Berg na sua concepção e nas suas manipulações heterodoxas, que levaram Schoenberg a dizer sobre uma delas uma frase quase incompreensível: “teoricamente está errada, mas artisticamente está certa”. A questão era apenas uma: a regra/método de Schoenberg e a indisciplina (criativa) de Berg perante o método do mestre. Talvez não se escreva tanto sobre ela por ser uma peça do tonalismo tardio do século XIX, devedora da Sonata de Liszt e de toda a linguagem musical pós-wagneriana, pós-acorde-do-tristan, à qual ninguém escapou, e talvez do conceito de Schoenberg, o seu professor, de “develloping variations” (ficando nós – eu, enfim – sem saber se afinal vem de Brahms ou Wagner). Podemos pensar que tudo isto está já, em génese, em Beethoven, o grande mestre do sistema tonal.

Estará, mas esta é a Sonata de Alban Berg e nem só de antecedentes históricos e de percursores vive uma obra musical. Ela vive essencialmente de si própria.

Janeiro 2024