Nov 2008
Críticas
O pensamento e o seu choque de Maria Augusta Gonçalves, JL
Graffiti [just forms], Six Portraits of Pain, Acting OutPerante uma obra de António Pinho Vargas não resta outra hipótese senão pensar. Claro que o imperativo não é exclusivo do compositor, nem da sua música. O desafio está sempre presente. Mas o que distingue António Pinho Vargas é o caminho pessoal e tudo o que nele é iniludível, por opção e pelo seu oposto – isto é, por não poder ser de outra maneira. Ou, como Augusto M. Seabra tão bem explica no texto que acompanha o CD, porque António Pinho Vargas "delineia uma possibilidade de reinscrição do sujeito como matéria da própria música". E é esse factor que deixa a sua obra entre as maiores.
Perante uma obra de António Pinho Vargas não resta outra hipótese senão pensar. Claro que o imperativo não é exclusivo do compositor, nem da sua música. O desafio está sempre presente. Mas o que distingue António Pinho Vargas é o caminho pessoal e tudo o que nele é iniludível, por opção e pelo seu oposto – isto é, por não poder ser de outra maneira. Ou, como Augusto M. Seabra tão bem explica no texto que acompanha o CD, porque António Pinho Vargas "delineia uma possibilidade de reinscrição do sujeito como matéria da própria música". E é esse factor que deixa a sua obra entre as maiores.
Tome-se como exemplo a peça central deste disco, Six Portraits of Pain, Seis Retratos da Dor. Eles tomam – cada um desses retratos toma – um escritor: Espinosa, Thomas Bernhard, Manuel Gusmão, Anna Akhmátova, Paul Celan. Nenhum dos retratos se fixa num autor ou tem sequer a intenção de o fazer, no sentido de o evocar, homenagear ou "traduzir em música", por assim dizer. A questão é outra. Reside no embate – e tem de ser esse o termo, embate – que exactamente esses textos destes autores provocam; textos que nem sequer são ditos (à excepção do testemunho de Akhmátova, pelo próprio compositor) e cuja expressão vai além, muito além da 'musicalidade' que em si mesmos transportam ou de qualquer relação programática com a obra, embora se encontrem inscritos na partitura – ou seja, embora aí se encontrem como "numa dramaturgia da dor". A verdade é que, em Six Portraits of Pain, tudo tem a ver com a dor – a dor de existir, a dor do medo, a dor da morte, a dor da consciência, a dor da intolerância e do interdito; a dor da impossibilidade vinda do próprio indivíduo, a impossibilidade da fala, da comunicação ou da partilha, a impossibilidade do pensamento e, dessa impossibilidade, a dor do silêncio clandestino, mesmo, ou sobretudo, num tempo que se crê livre, num quotidiano no qual nada pareça impossível.
Pinho Vargas começa com Espinosa, através da citação de Gilles Deleuze e da memória da tentativa de assassínio do determinante filósofo seiscentista: "Conta-se que Espinosa conservava o casaco rasgado pela faca assassina, para se lembrar que o pensamento nem sempre era amado pelos homens". O percurso aqui iniciado encerra com Paul Celan (cinco rosas mais tarde): "Vivemos sob céus sombrios e são poucos os seres humanos… Tento conservar o que me restou". A dor é insuportável e está ligada a tudo – tudo o que de mais banal atrofia. E da dor, ainda o que restou, ainda a resistência, a possibilidade de pensar, insistir no pensamento – ou a 'reinscrição' do sujeito na própria música.
Six Portraits of Pain são, se se quiser, um concerto para violoncelo e conjunto instrumental. No entanto, é preciso ter bem presente o papel dos instrumentos como agentes do drama, porque o caminho que o compositor desenha segue 'o fio da navalha' – é aquele em que o indivíduo se define, num diálogo constante, entre o som grave, humano, do instrumento, com as diferentes secções da orquestra.
A obra foi concebida para a abertura da Casa da Música, em 2005, e aí foi interpretada, pelo Remix Ensemble, igualmente com Anssi Karttunen como solista. No disco surge entre Graffiti (Just Forms), peça mais ou menos contemporânea, concluída em 2006, e Acting Out, vinda de 1998, ambas compostas para a Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Teatro Nacional de São Carlos, aqui gravadas pela Orquestra Nacional do Porto.
À semelhança de Six Portraits of Pain, Acting Out impõe solistas, isto é, um diálogo-confronto com a orquestra. Por outras palavras, há sempre o indivíduo, a noção do seu drama e o instante no qual joga a sua essência. A obra determina-se na sucessão de Antecedentes e Respostas, num exercício vital entre o piano (de Miguel Henriques), a percussão (de Elisabeth Davis) e o conjunto orquestral. A tensão é permanente, seguindo até à inevitável Resposta Brutal a que se sucede a Hommage à Kurtag que a conclui.
Graffiti (Just Forms) abre o disco, como um preâmbulo. Sugere um estudo da forma, construído a partir de materiais de base que evoluem e se adensam, explorando diferentes possibilidades como uma espécie de 'graffiti musical'.
O texto de Augusto M. Seabra que acompanha o CD constitui um testemunho justo sobre o compositor e um precioso guia de audição das obras.
António Pinho Vargas, Graffiti (Just Forms), Six Portraits of Pain, Acting Out, Orq. Nacional do Porto, dir. Baldur Brönnimann e Martin André, Remix Ensemble, dir. Franck Ollu, CD Numérica, 65'44"
Capa de Graffiti [just forms], Six Portraits of Pain, Acting-Out
Six Portraits of Pain, (CD e gravação de 2007) Numérica e Casa da Música
Acting-Out in Do tempo dos Sonhos, 1998 (rev.2000) Martin André, Miguel Henriques, Elizabeth Davis, ONPorto.