António Pinho Vargas

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Set 2014

REQUIEM & JUDAS Tudo o que de humano se teme

Maria Augusta Gonçalves, JL CD Naxos

Primeiro, em 2004, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, depois, no mesmo local, em 2012. Quem viveu um momento e o outro, sabe o que aconteceu: chegar ao fim desses dois concertos, com a certeza de ter ouvido duas obras maiores da contemporaneidade, dois momentos que marcam a vida, que detêm a sua essência e se impoem na memória; dois momentos que regressam uma e outra vez, com tudo o que de humano se hesita sequer em reconhecer

Tudo o que de humano se teme


Primeiro, em 2004, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, depois, no mesmo local, em 2012. Quem viveu um momento e o outro, sabe o que aconteceu: chegar ao fim desses dois concertos, com a certeza de ter ouvido duas obras maiores da contemporaneidade, dois momentos que marcam a vida, que detêm a sua essência e se impoem na memória; dois momentos que regressam uma e outra vez, com tudo o que de humano se hesita sequer em reconhecer. São essas obras, nesses dois instantes das temporadas de muúsica da Gulbenkian, que agora se editam em disco: a oratória “Judas”, de 2002, e o “Requiem”, de 2012. Uma e a outra obra são de António Pinho Vargas.

Não há um único instante na producão do compositor que não exija pensamento, confronto, consciência do tempo e do espaco em que se vive, e da história que (n)os sustenta.


“Judas”, o apóstolo improvável no centro de uma oratória, uma personagem tão trágica como aquele que traiu. É essa traição, aliás – a traicão de Judas, segundo Lucas, João, Mateus e Marcos, os quatro evangelistas -, que domina a obra e a faz terrena, consciente do que é comum aos mortais. Tudo é drama. A perturbação é constante, intensificada pelos instrumentos de percussão. Orquestra e vozes combinam-se num complexo jogo de texturas, materializando as perspetivas que se acumulam. No texto que acompanha o CD, Pinho Vargas recorda as limitações financeiras, que o impossibilitaram de usar solistas, obrigando-o a procurar diferentes soluções. Hoje, basta ouvir a secção em que Jesus garante que um dos apóstolos o entregará, para não se conseguir imaginá-la de outra maneira.


“Judas” estabelece necessariamente um elo com todas as grandes oratórias e paixões que a antecederam. No “Requiem”, essa ligação é mais evidente. O facto é destacado pelo compositor: “Escrever um ‘Requiem’ é, acima de tudo, ‘responder’ à história de numerosas obras do passado”. Mas é também, como sublinha, “lidar com um texto litúrgico” da tradição crista ocidental, “cujo sentido mais profundo remonta ao momento em que o homem primitivo enterrou os primeiros mortos”, ou seja, ao momento inicial do longo percurso da humanidade, consciente de si mesma.


O “Requiem” de António Pinho Vargas é, como todos os Requiem, uma das mais íntimas possibilidades de ligacao ao que de mais misterioso se impõe da existência, a morte. É a oracao do fim de um tempo – mas é a deste tempo, com tudo o que de humano se teme. E conflui para esse acorde “imperfeito” final, em que se materializam todas as dúvidas, a grande incógnita. A obra coloca-se necessariamente na linha dos grandes Requiem da história da música. Mas esse instante tao perturbador pode encontrar paralelo também nesse fecho das “Memórias” de Rómulo de Carvalho (um outro Requiem): “De repente, tudo se desmoronou (…). E no alvoroco dos escombros, apareceram [os] olhos ardentes”, da companheira de décadas, que olhavam o poeta. “E é tudo. Adeus.”


No início do verão, a propósito da edição recente de dois outros discos do compositor – a ópera “Outro Fim” e “Drumming” -, recordava-se aqui, no JL, que António Pinho Vargas se batera pela edição de todos os seus discos. A edição de “Judas” e do “Requiem” não fogem à regra.

A dádiva é imensa.

Crítica de Maria Augusta Gonçalves no JL 15-29 Outubro, 2014.

Requiem (2012) Coro e Orquestra Gulbenkian dir. Joana Carneiro.

Judas (2002) Coro e Orquestra Gulnbenkian, dir, Fernando Eldoro

Antonio Pinho Vargas: Judas secundum Lucam, Johannem, Matteum et Marcum (2002) Comnpleto