PEDRO BOLÉO, Público 23/11/2012

Um Requiem impossível, com amor
Todos os ouvidos esperavam, acima de tudo, o novo Requiem de Pinho Vargas dirigido por Joana Carneiro.

Pedro Boléo
22 de Novembro de 2012, 15:26

Antes do concerto, sentia-se no ar uma intensa curiosidade. Era a estreia do Requiem de António Pinho Vargas. Havia uma expectativa forte, uma imprescindível energia inquiridora. Bom sinal, raro. Como será esta nova composição? O Grande Auditório da Gulbenkian praticamente encheu.

Claro que também se ia escutar Stravinsky (A Sinfonia dos Salmos) e Samuel Barber (Adagio para cordas), que pareciam estranhas escolhas para acompanhar a obra de Pinho Vargas mas que, no fim de contas, com ela dialogam intensamente. Duas obras um pouco difíceis de colocar numa história da música linear, em certa medida polémicas, apesar de canonizadas.

Mas todos os ouvidos esperavam, acima de tudo, o novo Requiem de Pinho Vargas dirigido por Joana Carneiro. Princípio (porque era a estreia mundial) de um fim (porque de uma missa de mortos se trata). Ou, de outra forma: o início da vida ouvida de uma obra sobre o fim da vida. “Escrever um Requiem é, em primeiro lugar, dar uma ‘resposta’ a uma história de numerosas obras musicais do passado”, escreveu Pinho Vargas num pequeno texto de apresentação da obra. Tarefa ambiciosa, portanto: responder à história e, na mesma penada, compor um Requiem absolutamente seu.

Pinho Vargas solicitou à Gulbenkian uma encomenda que permitisse continuar um trabalho (dar continuidade à sua oratória Judas, de 2002) – e a instituição encomendou mesmo. O resultado é um Requiem de pessoalíssimas ressonâncias, com uma voz própria, capaz de não ficar esmagado pelo peso da história… e da história da música.

Requiem humanista, que põe os acentos agudos nas inquietações do ser humano perante a morte muito mais do que nas fúrias divinas. O texto era o da missa funerária, integral. Mas a música, na visão de Pinho Vargas, não acompanha tanto a justiça do Deus que tudo reduz a cinzas, prefere antes, desde o início, sublinhar a necessidade humana de resposta ao desaparecimento. Questão que o compositor tem colocado recorrentemente no seu percurso, ora interrogando as trevas e confrontando-se radicalmente com a ausência, ora procurando um melancólico agasalho para a última inquietação: a morte.

E este Requiem tem lá tudo isso: interroga o medo, confronta-se com o acto de compor e, ao mesmo tempo, foge. Fuga, sim, ao confronto desesperado com a morte e com o passado que já não volta, porque é viver que importa ainda. Busca, talvez nostálgica, de re-compor uma unidade orgânica na música e na história que se partiu. Simplificação de meios para dizer o mais complexo da vida. Nas texturas densas da orquestra, por vezes quebradas, fugindo às resoluções, mas numa procura incessante da reconciliação. Contraditório Requiem, pois (e pode um Requiem de hoje não o ser?) que convoca e enfrenta o texto “terrível” do Deus vingador para fazer as pazes com o desconhecido. Entre o confronto e a pacificação, entre as forças insondáveis para lá do humano e a sensibilidade humana mais pequena, o medo mais comum, o som do lamento, a música da perda.

Pinho Vargas resolve a questão não numa procura da originalidade, mas numa viagem interior, declaradamente melancólica perante o projecto impossível de dizer como é o que já não há. Por isso o Confutatis (“Livra-me da agitação dos malditos”) ganha mais força do que o Dies Irae, onde a ira de Deus se esfuma, se quebra. Por isso, o Lacrimosa apaga o seu lado ritual para se apresentar muito mais como uma correspondência lírica a alguém que se amou… e ainda ama. Porque este Requiem tem declarações de amor e interrogações pessoais sobre a vida e o próprio acto de deixar coisas no mundo que se deixará. Uma reflexão musical sobre o que fica da música, e que música podemos fazer para o que se foi. A voz de Pinho Vargas parece estar muito mais na orquestra do que no coro, quase sempre remetido para uma escrita relativamente linear (e muitas vezes silábica), mas tornado denso por um trabalho harmónico interessante: a harmonia que comenta o desaparecimento, mas é impotente perante a morte, porque não há escapatória. A escrita para as vozes, paradoxalmente (porque é onde está o texto, e aí se julgaria – erradamente – que está o fulcro do que se quer dizer), parece menos interrogativa, menos
profundamente questionadora do que a escrita para a orquestra. Especialmente felizes são, contudo, o Agnus Dei e o Libera me finais, onde o medo, uma vez mais, não é o da ira divina, mas o de não ter resposta para a morte. A não ser talvez isto: estou aqui, e componho. Estou aqui, ouçam.

https://www.publico.pt/2012/11/22/culturaipsilon/critica/um-requiem-impossivel-com-amor-1574604