António Pinho Vargas

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30 de novembro, -0001

conhecer desde cedo… o espectador emancipado

Desde muito cedo na minha vida como músico suspeitei, aprendi, combati, aquilo que posso resumir como “a teoria da vanguarda”. Em primeiro lugar “a vanguarda da classe operária” - o povo ainda não conhece os mecanismos da sua opressão mas o partido, o dirigente, munido da sua teoria científica orienta as suas lutas na direcção "correta”; pouco depois, em 1975, passei horas a ler capítulos de Jean-François Lyotard (À partir de Marx et Freud) e de A Sociedade do Espectáculo de Guy Debord - livros que talvez hoje não queira voltar a ler - mas que na altura serviram para me ajudar a problematizar e discutir alguns slogans, correntes na época, que tinham entrado no espírito de muitos amigos e colegas do café/universidade (Direito 1970 Lisboa/ Letras Porto 1971-2 até 74/5) ao ponto de ser necessário expressar a minha discordância activa com princípios como “a música ao serviço do povo” defendida por todos (! não é exagero!) os partidos maoístas do pré e pós-25 de Abril, ideias que não coincidiam completamente com as posições do PCP mas que se manifestavam, por vezes, também nos seus militantes ou dirigentes. Nas manifestações dos maos gritava-se o slogan que incluia Estaline e Mao Tse-Tung, a lista dos "clássicos". A questão da arte e da política sempre foi um problema para os marxistas (quanto mais recém-chegados pior).


Combatia-se no café, na escola, na sala de ensaios e no palco. Contra a arrogância de Adorno, filósofo brilhante da Escola de Franfurt (marxismo ocidental), mas opaco e sobretudo completamente convencido que sabia (e escrevia-o), qual era "a música que devia ser feita" e a que "não devia ser feita" naquela altura, para simplificar, contra o que já chamava "o capitalismo tardio e a sociedade admnistrada".

Havia ainda nestas posições um perfume estalinista ou jdanovista (procurar na wikipedia), a preto e branco, apesar de não haver nenhum alinhamento desses filósofos (W. Benjamin sobretudo) com a URSS, sobre a qual estava já bastante bem informado (muito antes de 1991).

Em todo o caso para mim entre os 20 e os 24 anos, a questão resumia-se ao seguinte: não cabia aos partidários/crentes de uma autodeclarada teoria “científica” decretarem a sua própria superioridade sobre as massas (o povo), não cabia aos dirigentes dessas organizações decidir o que é que nós (burgueses, estudantes, universitários) devíamos fazer para “servir fosse que causa fosse”. Eu subia ao palco, tocava música e aí sentia a inteligência do público, do espectador, o seu critério de avaliação e retribuição aos artistas; nunca acreditei que fossem sempre ou obrigatoriamente comandados pelas máquinas ou “aparelhos ideológicos do estado” (Althusser). Essa apreensão particular ou precoce sedimentou-se no meu espírito. E a vida seguiu em frente armada com estas convicções pessoais firmes e com um desejo, um amor pela música.


Apesar de um capítulo de Deleuze-Guattari importante no qual emergem algumas ideias produtivas nesta direção (em O que é a filosofia, 1991) foi preciso esperar pelo livro de Jacques Rancière Le spectateur emancipé” (2008) tradução portuguesa 2010 (Orfeu Negro) para se poder ler preto-no-branco: “quanto à emancipação, essa começa quando se põe em questão a oposição entre olhar e agir, quando se compreende que as evidências que assim estruturam as relações do dizer, do ver e do fazer pertencem elas próprias à estrutura da dominação e da sujeição”.… “o espectador também age, como o aluno ou o cientista. Observa, selecciona, compara, interpreta” ou ”compõe o seu próprio poema com os elementos do poema que tem à sua frente”

“Dir-se-á que o artista não quer instruir o espectador. O artista, hoje em dia, recusa-se a utilizar a cena para impor uma lição ou fazer passar uma mensagem; quer somente produzir uma forma de consciência, uma intensidade de sentimento, uma energia para a acção” e finalmente “o poder comum aos espectadores não tem a ver com a respectiva qualidade de membros de um corpo colectivo ou qualuqer forma de especifica de interactividade. É antes o poder que cada um ou cada uma tem de traduzir à sua maneira o que percebe, de ligar o que percebe à aventura intelectual singular que os torna semelhantes a todos os outros na medida em que essa aventura singular não se assemelha a nenhuma outra. Esse poder como da igualdade das inteligências liga os individuos entre si, fá-los proceder à troca das suas actividades intelectuaism ao mesmo tempo que os mantém separados uns dos outros, igualmente capazes de utilizar o poder de todos para traçar o seu caminho próprio!" (Rancière, p.22-26)


Depois destas frases maravilhosas de Rancière, para concluir posso repetir parte da última: “igualmente capazes de utilizar o poder de todos para traçar o seu caminho próprio!”

Residiu aqui a minha sorte: comecei como espectador e foi essa aprendizagem reflexiva, que superou todos os entraves que as ideologias, os preconceitos, as hegemonias, as cegueiras ou mesmo as incompreensões - todas em doses maçicas e criativas - tentaram colocar.

Quando digo à minha fiha que tive sorte (o que inclui esta sorte e muitas outras) ela responde-me: "Pai, não foi só sorte!"