António Pinho Vargas

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14 de outubro, 2025

política, arte e política desde 1972 (até hoje)

1. O aspecto mais positivo dos resultados eleitorais foi a derrota inapelável do chega (das 30 câmaras sobraram 3, atrás da CDU e do CDS, o partido do meio-taxi). O magnífico João Ferreira irá prosseguir aquilo que quis conseguir: brilhar na oposição inútil e heróica a Carlos Moedas (que lhe deve a vitória, entre outros factores como os erros do PS). Desculpem os camaradas da CDU a minha insistência na história: “o inimigo principal não é o fascismo mas sim a social-democracia” (palavra de ordem da III Internacional durante a ascensão do fascismo nos anos 1930). Se não foi esta a palavra de ordem que orientou a opção do PCP/CDU no país todo, podia ter sido mas certamente que as acusações ao PS foram actualizadas noutros termos em 2025.

2. Já li muitos argumentos de apoiantes do PCP, alguns meus amigos, sobre o assunto. Não os compreendi antes. Não os irei compreender agora. Dispensaria voltar a ouvi-los. Mas sei bem que aquilo que se deseja no Facebook é em geral exatamente o contrário daquilo que acontece. Informo os meus amigos - muitos sabem isso - que não pertenço nem pertenci ao PCP, não pertenço nem pertenci nunca ao PS, nem irei fazer isso agora. Seria um disparate inexplicável.

3. Enquanto "independente de esquerda" - exdrúxula designação que de pouco serve - penso solitário. Penso com todos os erros possíveis para o olhar dos convictos daquilo de que eu não estou convicto.

4. Não posso impedir as conclusões que fui tirando ao longo da vida sobre a história - estudei na FLUP no curso do mesmo nome - bem como e, sobretudo, nas leituras que fui fazendo sobre a Revolução Francesa, a Revolução Russa e, em menor grau, da Revolução Chinesa. Quis muitas vezes fazer um esforço para entender as pulsões trágicas de derrotas sectárias (a Guerra Civil de Espanha é paradigmática), bem como os episódios de terror que se verificam nos três casos. Li desde 1972 muitos livros sobre as relações entre a arte e a política - temática quase desaparecida hoje - mas muito viva naqueles anos em que se discutia com alguma violência, as teorias de Theodor Adorno, expoente do marxismo ocidental da Escola de Frankfurt, as perseguições na União Soviética aos artistas acusados de formalismo burguês no período de Zhdanov e do Congresso dos Compositores Progressistas em Praga em 1948 (salvo erro) no qual participou Fernando Lopes Graça. O compositor manifestou sérias reservas na altura às posições sectárias e impostas de cima pela ideologia do realismo socialista de Zhdanov, ideólogo de Staline na época pós-1945.

Radica nesta conjuntura da Guerra Fria, o apoio institucional dos Estados Unidos e do Congresso das Liberdades Culturais (criado em 1950 em Berlim e dirigido por Nabukov, sobrinho do escritor) e dos países ocidentais aos compositores da vanguarda de Darmstadt e aos festivais de música contemporânea. Tratava-se de combater as ideias do "realismo socialista" nas artes face à força dos Partidos Comunistas em países europeus importantes, em especial a França e Itália. Poderiam ganhar eleições nessa altura.

5. Rezam todas as crónicas que pude ler e incluir nos meus livros Música e Poder (Almedina, 2010) e nas Cinco Especulações Críticas sobre a História da Música do Séc. XX, (Culturgest, 3ª edição, 2010, 1ª 2008, 2ª 2009), mas já antes em Sobre Música (Afrontamento, 2002) Talvez por isso, as minhas aulas de história da música na ESML durante muitos anos eram tão apreciadas pelos numerosos alunos que por lá passaram (de acordo com as minhas elevadas classificações pelos alunos, que me transmitiam os meus colegas do Conselho Científico (nas décadas de 1990, 2000, e 2010.) Na minha opinião, um compositor, um estudante de composição ganharia densidade intelectual, peso espressivo e estético com um conhecimento das várias posições estéticas, por vezes em confrontos acesos, muitas vezes estreitamente articulados com visões do mundo e posições políticas, ganharia uma noção mais aguda do seu território, se estivesse a par do que tinha acontecido nas obras compostas (dos dois lados do confronto) por grandes artistas, mas também do seu contexto ideológico tantas vezes presente com clareza a) nas próprias obras e b) nos textos que, na época, os compositores usualmente publicavam nas notas de programas.

6. A par disso algumas interrogações obrigavam a mais leituras, mais estudo histórico. Li sobre Robespierre, SaintJust, sobre Lenine, Staline, Trotsky, Bukharine, Mao Tse-Tung e outros revolucionários e/ou traidores, conforme as perspectivas e as várias fases históricas que sedimentaram a ideia de que "as revoluções devoram sempre os seus filhos".

Estas ideias de revolução, de tomada do poder pela violência (a tomada da Bastilha, a tomada do Palácio de Inverno em Petrogrado em Outubro, etc.) não se aplicam à realidade actual. Se durante o Verão Quente de 1975 ainda pairava por cima uma hipótese imaginária e real de uma possível tomada do poder pelas esquerdas radicais (na altura sim, hoje não) e alguns membros do MFA podem ter sido igualmente "devorados pela revolução". O passado do PCP, na resistência ao fascismo, em especial no sul do país, foi um factor decisivo para lhe ter assegurado existência e relevância em Portugal depois do fim da União Soviética em 1991. Nos países europeus os partidos comunistas foram desaparecendo e há estudos que defendem que, em França, os seus militantes migraram para a Frente Nacional de Le Pen (pai). Entre uns e outros existe como factor comum, o facto de serem contra "o estado das coisas", apesar das grandes diferenças ideologias nos antípodas. O capitalismo tornou-se uma espécie de "segunda natureza" da vida em sociedade. Daí a frase de Frederik Jameson " é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo". Isto terá sido pensável, sobretudo na fase da globalização mundial, na qual a economia das empresas multinacionais abrangia todo o planeta, com numerosas externalizações (computadores de marcas americanas com chips produzidos no sudoeste asiático, com salários muito baixos). Trump e o crescimento dos "populismos" de extrema direita, foram originalmente fenómenos de forte reação contra as elites globais do 1%, contra a primazia do "politicamente correto", nos Estados Unidos, contra o desemprego no interior dos países ricos do sistema-mundo (Wallerstein). A cidade de Detroit, antigo bastião da construção automóvel americana, hoje cidade-fantasma na qual florescem os apoiantes de Donald Trump.

7. Tudo isto apresenta um elevadíssimo grau de complexidade e não posso pretender ter muitas mais respostas. Consigo ter uma visão ampla, mas ninguém é capaz de responder, ainda menos com uma teoria universal, a todos os problemas e fenómenos que se apresentam hoje ao planeta e aos humanos.

8. Esta tomada de posição seguida de uma descrição parcial de um percurso de vida, de empenhamento cívico, de trabalho na produção e reprodução de conhecimento artistico e de uma crença que se construiu de uma certa noção de bom-senso, em lugar de certezas caducas inoperantes hoje, julgo. Esta posição dizia é um daqueles lençóis que antes se evitavam no Facebook mas que agora proliferam muito mais. Os jornais em geral não tem espaço senão para uns poucos (que também publicam aqui, de resto, os artigos que escrevem para jornais).

Ninguém é obrigado a ler. A liberdade continua a ser um bem inestimável que devemos defender com intransigência, aqui sim.


António Pinho Vargas, 13 de Outubro 2025