18 de maio, 2025
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António Pinho Vargas | Six Portraits of Pain | Oscuro | Novo Disco Artway
NOVA DATA LANÇAMENTO | 15 de JUNHO, 16:00 | CASA DA MÚSICACasa da Música (concerto e apresentação de documentário) NOVA DATA 15 de JUNHO 16:00 na Casa da Música
O músico e compositor António Pinho Vargas apresenta o disco Oscuro / Six Portraits of Pain, lançado pela Artway Next, no dia 18 de maio. Estas obras, encomendas da Casa da Música, foram estreadas pelos grupos residentes: o Remix Ensemble em Six Portraits of Pain em 2005, com o violoncelista finlandês Anssi Karttunen, na inauguração da Casa da Música; e Oscuro, pela Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música dirigida por Pedro Neves, em 15 de outubro de 2022. O disco será apresentado no dia do lançamento, às 18h, na Casa da Música, onde será lançado também um documentário que terá por base a vida e obra de António Pinho Vargas.
Segundo António Pinho Vargas, “Os 6 retratos da dor (Six Portraits of Pain) da obra, com a sua forma e os seus alicerces compostos a partir de 6 frases de textos (pequenos excertos de escritos dispersos e de várias proveniências, cartas, poemas, etc.) escritos na partitura sendo os músicos convidados a ler, dos autores que dão os títulos a cada um deles; Oscuro cujas metáforas fundadoras resultaram dos eventos-catástrofe com milhões de mortos nos anos antecedentes, a pandemia seguida de guerras, ainda em curso no momento em que escrevo, com o seu cortejo de desgraças. Radica neste contexto global a primeira frase da nota de programa que aqui repito: “Cada obra é sempre uma resposta às determinações de um corpo e às determinações de um mundo." No entanto, os 17 anos que separaram as duas estreias podem explicar parcialmente as diferenças que passo a tentar apenas apontar. Foram 17 anos que deram tempo a todas as crises criativas que afectam os compositores enquanto, ao mesmo tempo, os obrigam a encontrar as mais diversas maneiras de avançar no fazer-das-obras. As entidades temáticas de uma e de outra são muito diversas e objecto de um tratamento muito diferenciado.”
CRÍTICAS:
“esta obra de intensa procura interior (criativa, emotiva) busca, cá fora, os ecos de uma dor maior, um lamento por um sofrimento comum nos limites do que se pode ou não pode dizer. – Pedro Boléo, 2014
“This piece of music is of unparalleled distinction, hence, it must not be compared with anything else in the realm of classical, romantic or even contemporary music. It is in a class of its own. It is a sublime expression through the sound of cello, violin and percussion. It is ethereal!” - @cellopainting, YouTube. 2024
“a presença de um grande violoncelista como Anssi Karttunen demonstrou um interesse em garantir as melhores condições a esta estreia – e essa presença foi também motor da exaltante execução por parte do Remix Ensemble dirigido por Frank Ollu, [com destaque, que foram mesmo primorosos, para os violinistas Angel Gimeno e Xuan Du]. - Six Portraits of Pain, Augusto M. Seabra, Público 2005
È un pezzo di intenso struggente pessimismo intelletuale, ispirato a testi de Spinoza, Bernard, Gusmão, Akhmatova, Celan, eppure musicoterapeutico, catartico. - Danielle Martino, in Gazzeta della Musica, 2005
“o que distingue António Pinho Vargas é o caminho pessoal e tudo o que nele é iniludível, por opção e pelo seu oposto – isto é, por não poder ser de outra maneira. Ou, como Augusto M. Seabra tão bem explica no texto que acompanha o CD, porque António Pinho Vargas "delineia uma possibilidade de reinscrição do sujeito como matéria da própria música". E é esse factor que deixa a sua obra entre as maiores.” - Maria Augusta Gonçalves, JL , 2008
NOTAS DE ANTÓNIO PINHO VARGAS SOBRE SIX PORTRAITS OF PAIN E OSCURO:
Six Portraits of Pain, para violoncelo e pequena orquestra (2005)
“Esta peça tem uma relação com seis textos que escolhi. Não é uma peça programática no sentido habitual do termo (como poderia ser?) mas os textos habitam a obra. Estão escritos na partitura e aos músicos é pedida a sua leitura durante a execução. Dessa forma, cinco dos seis textos escritos na partitura existem na obra enquanto presença consciente nos músicos, mas não existem enquanto canto ou fala para os ouvintes. A única excepção é um fragmento de um poema de Anna Akhmátova. Os fragmentos que seleccionei provêm de diversos tipos de testemunhos escritos mas nem todos “literários” no sentido estrito — cartas a amigos, discursos, frases de livros, poemas — e expõem diversos tipos de sofrimento existencial: perigos do pensamento livre, da dissidência, a perplexidade face ao estado do mundo, traumas decorrentes do inenarrável vivido e (sempre) a presença da morte. Como diz uma parte do texto de Thomas Bernhard: “Esta dor constituiu-nos. Esta dor é agora o nosso estado de espírito.” A dor tanto é a dor poética como a dor descrita, vista, sentida ou imaginada…
A minha música é inquieta: interessam-me os gestos, a captação de forças, de intensidades. Morton Feldman dizia que para ele tudo era “objet trouvé”, mesmo aquilo que ele pensava ter inventado. Os objectos que eu encontro são diferentes, mas às vezes caio igualmente na ilusão de os ter inventado. Há vários anos que falo de “objectos” musicais. E neste caso encontrei também uns poemas. Seria estranho que trabalhar tanto tempo com estes textos ao lado ou na memória não tivesse tido consequências, presenças, na música e no discurso. Tenho algumas convicções sobre este aspecto, poderia partilhá-las, mas nada me garante que não haja outras que me escapam. Escapam-me a mim, mas não escapam à peça.”
Os Six Portraits of Pain são:
1. Espinosa / Deleuze
2. Thomas Bernhard
3. Manuel Gusmão I
4. Akhmátova
5. Cadenza sopra Spinoza
6. Manuel Gusmão II / Paul Celan (coda)
“Os textos são sublimes. O primeiro que escolhi, de Gilles Deleuze — “Conta-se que Espinosa conservava o casaco rasgado pela faca assassina para se lembrar que o pensamento nem sempre era amado pelos homens” —, é, de certo modo, o mais importante porque (me) lançou a obra para a questão fundamental da liberdade do pensamento, da arte, da política e das diversas repressões que marcam as suas histórias. Hesito ainda sobre a inclusão de todos os fragmentos literários nestas notas. A possibilidade da sua leitura poderia orientar a percepção da obra para a procura de uma “significação literal” que não existe, que não pretendi nem quero provocar inadvertidamente.
Principalmente porque a relação entre os textos e a música não é linear. Num dado momento tomei consciência de que a estrutura formal da peça apresentava relações internas mais complexas do que a sucessão de seis retratos/andamentos, como se durante o trabalho composicional cada texto/retrato/música tivesse ultrapassado a sua localização particular numa página e afectasse o todo de forma irremediável. Estabeleci uma rede de relações entre estes elementos e é dela que deriva a narrativa da peça.
Tenho uma posição peculiar em relação a concertos; o habitual carácter atlético-virtuosístico do papel do solista não me atrai. Frequentemente cede-se à tentação exibicionista. Tento sempre outro tipo de solução. Nesta peça há um solista, o violoncelo, dois solistas secundários, dois violinos, e ainda três percussionistas como dramatis personae musicais. Esta divisão (1+2+3=6) tem igualmente uma relação com os 6 retratos e uma tipologia privada das dores.
António Pinho Vargas, 2005
Six Portraits of Pain
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1 - Deleuze/ Espinosa
"Conta-se que Espinosa conservava o casaco rasgado pela faca assassina
para se lembrar que o pensamento nem sempre era amado pelos homens."
Gilles Deleuze, Espinoza
2- Thomas Bernhard
"Durante este meio século todos nós
não fomos mais do que uma grande dor.
Esta dor constituiu-nos. Esta dor é agora
o nosso estado de espírito"
3- Manuel Gusmão
" e aberta ficou a boca
...os assassinos nem sequer lha fecharam..."
4- Akhmátova
Passei dezassete meses nas bichas da cadeia de Leninegrado.
Uma mulher atrás de mim, perguntou-me ao ouvido [...]
(ali toda a gente sussurrava):
Pode contar isto? Respondi: Posso.
Então, uma espécie de sorriso deslizou por aquilo
que outrora fora o rosto da mulher.
5 - Cadenza sopra Spinosa
6 - Manuel Gusmão II
"Cada parede a que chego é agora sempre a última..."
Paul Celan / Coda:
“Vivemos sob céus sombrios e... existem poucos seres humanos.
Talvez por isso existam também tão poucos poemas.
As esperanças que me restam não são grandes; tento
conservar aquilo que me restou”
Sobre Oscuro
Cada obra é sempre uma resposta às determinações de um corpo e às determinações de um mundo. Depois de três anos de pandemia seguidos de uma guerra na Europa, o mundo impõe-nos a sua desfiguração, as suas tragédias sucessivas, o seu enlouquecimento. As palavras e as imagens de pensamento que me ocorreram durante o longo período da composição foram: abismo, Abgrund (abismo ou abissal), um chão (grund) arrancado bruscamente, um temor latente, um obscuro particular.
Durante o segundo confinamento da pandemia em 2021 encontrei refúgio e abrigo no estudo de algumas obras compostas nos anos 60 e 70. As razões de uma tal escolha são-me desconhecidas. Planaltos sonoros, manchas, texturas. Desenhos. Filtros. Uma busca de modos de expressão que não me têm sido habituais. Constituí um mapa de desenhos: massas sonoras, turbulências, clusters, quartos de tom usados de forma dispersa. Compor é pôr com.
Os elementos musicais, agrestes, são tanto compostos como me compõem a mim, numa dialéctica misteriosa. Robert Schumann passava longas horas, durante os seus últimos meses, a olhar um Atlas, à procura de nomes de lugares para transcrever, diz-nos Clara. Talvez no estado de espanto e perplexidade que lhe restava. A leitura desta descrição e das suas cartas marca igualmente a obra. Oscuro. Um mapa/atlas.
Oscuro foi encomendada pela Casa da Música e é dedicada a Carlos Caires e Luís Tinoco. Agradeço à Casa da Música e ao seu diretor artístico António Jorge Pacheco - António Pinho Vargas, Setembro de 2022
BIOGRAFIA
Licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, António Pinho Vargas completou o Curso de Piano do Conservatório do Porto em 1987 e o Curso de Composição no Conservatório de Roterdão em 1990 onde estudou com Klaas de Vries como bolseiro da Fundação Gulbenkian entre 1987 e 1990. Professor Coordenador de Composição na Escola Superior de Música de Lisboa de 1991 a 2019 e Investigador-colaborador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Em 1995 foi condecorado pelo Presidente da República Portuguesa com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2012 recebeu o Prémio Universidade de Coimbra pelo conjunto da sua obra e em 2014 recebeu o Prémio da SPA Autores pela sua obra Magnificat para Coro e Orquestra e, em 2015, a mesma entidade concedeu-lhe a Medalha de Honra.
Compôs 4 óperas, 5 oratórias, 14 peças para orquestra, 8 obras para ensemble, 26 obras de música de câmara, 11 obras para solistas. Entre as obras mais recentes incluem-se Requiem (2012) Magnificat (2013) De Profundis (2014) Concerto para Violino (2015) Concerto para Viola (2016) Memorial (2018) Sinfonia (subjetiva) (2019) e Oscuro (2022). As suas obras foram tocadas pelas Orquestras Gulbenkian, Metropolitana de Lisboa, Sinfónica do Porto Casa da Música, Sinfónica Portuguesa, Coro Gulbenkian, Arditti Quartet, Artis Quartet de Viena, The Smith Quartet, Ronald Brautigam, Gloria Chen, Margaret Leng-Tan, Tânia Achot, Miguel Henriques, Tamila Kharambura, Madalena Soveral, Ana Mafalda Castro entre outros solistas.
Com uma vasta discografia, destacam-se Outros Lugares (Vertigo 1983) Cores e Aromas (EMI 1985) As folhas novas mudam de cor (EMI 1987) Os Jogos do Mundo (EMI 1989) Selos e Borboletas (EMI 1991) A Luz e a Escuridão (EMI 1996), Requiem & Judas (Naxos 2014), ópera Os Dias Levantados (EMI Classics 2004 reed. Naxos 2015), Verses and Nocturnes (Naxos 2015), Monodia (EMI Classics 1995 reed. Warner 1994), Magnificat - De Profundis (Warner 2017) e Concerto para violino (MPMP 2017) Lamentos (ArtwayNext2023)
Mais informações em www.antoniopinhovargas.com
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