04 de fevereiro, 2026
Programas
Nota sobre Dissolves me into geometrics
Septeto de Percussão / Quarteto de PercussãoDissolves me into geometrics
Esta obra para Septeto de Percussão foi-me proposta pela Arte no Tempo de um modo a um tempo peculiar mas a outro extremamente claro: “compor uma obra para percussão sem notas”. Ou seja, sem instrumentos de altura definida, como marimbas, vibrafones etc. Esse “programa” estabeleceu de forma imediata um horizonte timbrico, principalmente peles, que apenas acrescentei alguns instrumentos de metal em pontos precisos da obra (tam-tams, gongs, “petits percusions”).
De outro modo lançou-me necessariamente para um olhar para aquelas obras marcantes do final dos anos 1960 de Iannis Xenakis, Persephassa (1969), Psapha (1975) Gerard Crisey, Tempus ex Machina (1979) e, de outro modo, Drumming (1971) de Steve Reich. Todas estas obras constituiam uma memória vivida, uma revelação, um existência marcante num repertório que décadas mais tarde retomavam o exemplo isolado de Ionisation de Varèse. Em todo o caso, nós, tendo já uma longa vida de olhos postos em partituras, podemos reter delas elementos à partida insuspeitados: refiro-me às obras de Messiaen com referências escritas às origens dos seus materiais, como contos de pássaros identificados, nome de ritmos hindus, ou de ragas que constituem um exemplo único de compositor que “analisa as peças para nós” (Boulez dixit).
Não decidi nada de semelhante à parttida mas no decorrer da composição fui escrevendo passo a passo descrições pontuais que acabaram por lá ficar onde faziam sentido como: 1st Obsession, 2nd Obsession: diagonal varianti, ou lines to centre, Cadenza, Space, Episode Space I, Space II, Episode 3/8, Anacrusis di tempi, Obsession motive, FIves, Fives: varianti, Dissolves, Geometrics, Figures accel/rit, Brutale di Rihm. Estas indicações permanecendo escritas ao longo da obra constituiam finalmente um mapa, uma descricção daquilo que queria escrever para além da notação com a qual mantinham relação óbvia. O resultado é uma partitura e o seu mapa. Dissolves me into geometrics, o título, foi sofrendo alterações até se cristalizar nesta estranha formulação.
Dezembro de 2025
António Pinho Vargas
Fotografia Nuno Aroso dirige o Septeto Dissolves me.... no Museu do Oriente
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