Crítica de Maria Augusta Gonçalves no JL 15-29 Outubro, 2014.

Tudo o que de humano se teme

Primeiro, em 2004, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, depois, no mesmo local, em 2012. Quem viveu um momento e o outro, sabe o que aconteceu: chegar ao fim desses dois concertos, com a certeza de ter ouvido duas obras maiores da contemporaneidade, dois momentos que marcam a vida, que detêm a sua essência e se impoem na memória; dois momentos que regressam uma e outra vez, com tudo o que de humano se hesita sequer em reconhecer. São essas obras, nesses dois instantes das temporadas de muúsica da Gulbenkian, que agora se editam em disco: a oratória “Judas”, de 2002, e o “Requiem”, de 2012. Uma e a outra obra são de António Pinho Vargas.

Não há um único instante na producão do compositor que não exija pensamento, confronto, consciência do tempo e do espaco em que se vive, e da história que (n)os sustenta.

“Judas”, o apóstolo improvável no centro de uma oratória, uma personagem tão trágica como aquele que traiu. É essa traição, aliás – a traicão de Judas, segundo Lucas, João, Mateus e Marcos, os quatro evangelistas -, que domina a obra e a faz terrena, consciente do que é comum aos mortais. Tudo é drama. A perturbação é constante, intensificada pelos instrumentos de percussão. Orquestra e vozes combinam-se num complexo jogo de texturas, materializando as perspetivas que se acumulam. No texto que acompanha o CD, Pinho Vargas recorda as limitações financeiras, que o impossibilitaram de usar solistas, obrigando-o a procurar diferentes soluções. Hoje, basta ouvir a secção em que Jesus garante que um dos apóstolos o entregará, para não se conseguir imaginá-la de outra maneira.

“Judas” estabelece necessariamente um elo com todas as grandes oratórias e paixões que a
antecederam. No “Requiem”, essa ligação é mais evidente. O facto é destacado pelo compositor: “Escrever um ‘Requiem’ é, acima de tudo, ‘responder’ à história de numerosas obras do passado”. Mas é também, como sublinha, “lidar com um texto litúrgico” da tradição crista ocidental, “cujo sentido mais profundo remonta ao momento em que o homem primitivo enterrou os primeiros mortos”, ou seja, ao momento inicial do longo percurso da humanidade, consciente de si mesma.

O “Requiem” de António Pinho Vargas é, como todos os Requiem, uma das mais íntimas possibilidades de
ligacao ao que de mais misterioso se impõe da existência, a morte. É a oracao do fim de um tempo – mas é a deste tempo, com tudo o que de humano se teme. E conflui para esse acorde “imperfeito” final, em que se materializam todas as dúvidas, a grande incógnita. A obra coloca-se necessariamente na linha dos grandes Requiem da história da música. Mas esse instante tao perturbador pode encontrar paralelo também nesse fecho das “Memórias” de Rómulo de Carvalho (um outro Requiem): “De repente, tudo se desmoronou (…). E no alvoroco dos escombros, apareceram [os] olhos ardentes”, da companheira de décadas, que olhavam o poeta. “E é tudo. Adeus.”

No início do verão, a propósito da edição recente de dois outros discos do compositor – a ópera “Outro
fim” e “Drumming” -, recordava-se aqui, no JL, que António Pinho Vargas se batera pela edição de todos os seus discos. A edição de “Judas” e do “Requiem” não fogem à regra.
A dádiva é imensa.

Maria Augusta Gonçalves