Nov 2024
Críticas
"A possível luz do por vir" sobre Lamentos (2023)
de Maria Augusta Gonçalves, JLNão há um único motivo, um único compasso, um só acorde na música de António Pinho Vargas que não imponha pensamento, que não faça parte de uma profunda reflexão sobre o mundo, que não o olhe, que não o viva e se confronte com isto de se ser humano e sobreviver. Não há uma única obra de António Pinho Vargas que não tenha em si mesma a hipótese de redenção, essa possibilidade de pensar.
Não há um único motivo, um único compasso, um só acorde na música de António Pinho Vargas que não imponha pensamento, que não faça parte de uma profunda reflexão sobre o mundo, que não o olhe, que não o viva e se confronte com isto de se ser humano e sobreviver. Não há uma única obra de António Pinho Vargas que não tenha em si mesma a hipótese de redenção, essa possibilidade de pensar. Lamentos, o seu mais recente álbum, emerge num mundo que se esvai, um mundo onde a possibilidade seguinte, a esperança, se se quiser arriscar a palavra, parece ceder, exangue. E, no entanto, essa hipótese, mesmo que difusa, mesmo que ténue, parece emergir do próprio lamento. Pelo menos da maneira como António Pinho Vargas o expõe. Não por acaso, O Livro de Job é para aqui chamado. Não por acaso, o album surge quando os conflitos se agudizam e multiplicam, quando a Terra acusa o excesso, quando a chacina se aproxima e fecha o cerco, quando não só a velha ganância, mas também a estupidez e a ignorância dominam palcos globais e o ruído do mundo se torna insuportável. Lamentos, o álbum, reúne três obras de António Pinho Vargas que têm em comum essa designação para um andamento mais lento, introspetivo, elegíaco. A sucessão de obras alinha-se assim por esse ponto comum, por esse olhar, essa perceção. Tem início com a Sinfonia (Subjectiva), estreada em 2019, segue com o Concerto para viola, de 2016, e encerra com o Concerto para violino, do mesmo ano, dedicado ao violinista Gareguine Aroutionian (1951-2014), que se radicou em Portugal em 1989, fez parte da Orquestra Gulbenkian e lecionou durante anos na Escola Superior de Música de Lisboa — à semelhança do compositor — onde criou a orquestra de cordas Camerata Musart (atual Camerata Gareguin Aroutiounian). O título do album provém obviamente desses andamentos. Na Sinfonia toma o nome de Elegia (d’amore) e sucede ao primeiro, Sulla violenza, designação que expõe os acontecimentos que o definem. Depois dessa abertura, apenas o lamento faz sentido. São muitos os elementos por resolver, muitos os que encontram clareza e se definem, muitos os que só têm sentido no próprio lamento. A Sinfonia (Subjetiva) surge como um processo, onde não falta a inquietação nem a ironia (improbabile) do Scherzo, tão pouco a afirmação aberta do Finale. Cumpre-se na sua dimensão humana e na possibilidade (subjetiva) de cada um resistir. O Concerto para viola, originalmente estreado por Diemut Poppen, toma por referência O Livro de Job do Antigo Testamento: o homem rico que perde família e fortuna, pondo em causa a bondade de Deus, o seu desígnio e, com ele, a sua fé. Na linguagem de António Pinho Vargas, é a dúvida que prevalece, são as perguntas sem resposta, é a ira e o abandono em si mesmo. E a resolução possível, no mais profundo do ser. O nome de cada um dos quatro andamentos diz tudo: Abertura: Fé, molto adágio; Duvidas, deciso; Lamento, grave, dolente; Dúvidas, Fúrias: Coda. Faz sentido, a seguir, entrar no Andante molto flessibile que abre o Concerto para violino. Há algo de melancólico, há vida, algo de maestoso na integridade do olhar que a música propõe. E há algo de sublime – porque humano – que se consubstancia por inteiro nesse andamento final, iniciado em alegro, para desaguar no mais profundo lamento que encerra o álbum. Na tradição da música e da poesia, a exposição do lamento vai mais além, implica necessariamente a elaboração de senti-mentos. Num mundo que desaparece, se há hipótese de sobrevivência e de compreensão do presente, se há hipótese de lucidez, passa obviamente por aqui. A reflexão prossegue noutras obras do compositor, mais ou menos contemporâneas da Sinfonia (Subjetiva), como o Memorial para orquestra, a partir de José Saramago, ou as mais recentes Collections & Translations, quarto de cordas estreado este ano pelo Quarteto de Leipzig, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, e Oscuro, numa clareza imensa da sua essência para orquestra, estreada há perto de dois anos, no pós-pandemia, na Casa da Música, no Porto. O compositor, nas notas de programa que acompanharam esta estreia, não permitiu dúvida alguma: “Cada obra é sempre uma resposta às determinações de um corpo e às determinações de um mundo”, António Pinho Vargas sabe da essência da humanidade, no seu melhor e no seu pior. Em Memorial, a partir de três obras-chave de José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira, Ensaio sobre a Lucidez e As Intermitências da Morte – foi direto à parte mais íntima e fundamental da obra literária, esse “painel subterrâneo”, o lugar onde se encontra o pulsar das suas “grandes metáforas”, um lugar que só não é indizível, porque, na sua própria raiz, a música o substancia. Os dois primeiros andamentos, em torno Da Cegueira, conduziam-no “ao uso do termo basso profondo, não no seu sentido literal, mas como signo que assinala uma melodia grave, um baixo que emerge e anuncia as consequências terríveis da epidemia”, escreveu na apresentação da obra. Trata-se, como afirmou, de “uma figuração musical possível das violências de vários tipos que percorrem os três romances”, e se manifesta na multiplicidade da sua própria natureza: “Uma introdução, uma nova epidemia branca e um acender de luzes final que abre uma esperança, uma possibilidade nova sempre renovada, que termina num determinado acorde sem resolução”. Para Pinho Vargas, “essa é a metáfora musical final: as luzes permanecem acesas enquanto potência-por-vir”. De algum modo, essa é também a possível redenção que a obra de António Pinho Vargas – toda a obra de António Pinho Vargas – transporta, a força de homens e mulheres, na lucidez do seu ser e na dignidade do seu querer, contra a cegueira, a violência e a morte imposta por outros homens e outras mulheres. Um acorde sem resolução, com a luminosidade do por vir. A interpretação das três obras do álbum Lamentos demonstra o excelente nível da Orquestra Metropolitana de Lisboa, com o expoente de ambas as solistas virem do seu efetivo: a violinista Ana Pereira e a violetis-ta Joana Cipriano. A direção é do maestro titular, Pedro Neves. A gravação, efetuada em maio de 2023 no CCB, conta com o engenheiro de som Hugo Romano Guimarães. O Concerto para violino foi estreado por Tamila Kharambura em 2016, também com a Orquestra Metropolitana, e gravado pela violinista noutro notável álbum do compositor (com Quasi una Sonata para violino e piano, e quatro Estudos para violino solo). Lamentos venceu o Prémio Play de melhor álbum de música erudita 2024.
Jornal de Letras, 13-26 novembro 2024 p. 32
Lamentos (2023) Prémio Play Melhor Album de Música Clássica /Erudita, Prémio Pedro Osório pelo álbum Lamentos
Vídeo Entrevista (legendado em Inglês) sobre as 3 obras de Lamentos